Em 1990, a EB1/PE do Sítio de Baixo celebrou o ponto de partida de sua travessia pedagógico-educativa, tendo por ideário a construção de uma escola libertadora, consciente e interativa. Educadores e agentes educativos, alunos e famílias foram convidados para se integrar a uma comunidade escolar que priorizasse a reflexão, produção e criatividade, em lugar da mera repetição de modelos. Era um projeto ousado no contexto da inauguração; não o deixa de ser nos dias atuais, com todas as transições, inquietudes e clareiras que marcam a sociedade, em sua evolução histórica.
Entramos, em 2007, no nosso 18º ano de funcionamento (ou travessia?) - e o que foi concebido a princípio transformou-se substancialmente, e vem se transformando a cada ano. A Escola mais do que atingiu seus objetivos: reconstruiu-os, fê-los provisórios e em mutação. Isso, em vez de nos fragilizar, só nos fortificou. Afinal de contas, não há ideário ou atuação que se sustentem em arcabouços.
Durante todo esse período de atuação, buscamos formar um homem apto a conviver local e mundialmente, bem assim a se sentir parte integrante (e interferente) de uma sociedade multicultural. Da utopia de inspirar o surgimento de um homem "pleno", redirecionamos nosso olhar para a edificação de sujeitos que saibam vivenciar com serenidade os tantos aprenderes - o aprender a conhecer, a fazer, a conviver, a ser e, o que talvez seja síntese de todos os outros, o aprender a aprender. Com essa mudança de rota, abandonamos o risco de nos perder na retórica de uma "teoria de intenções".
Para conciliar a sublimidade do nosso desejo com a lógica da nossa ação, vimos modelando um espaço físico cada vez mais flexível; investindo na formação contínua de nossos profissionais; instrumentalizando nossa atuação em pautas legítimas e contextualizadas. Incorporamos o sonho e a ousadia às nossas intenções, mas procuramos não perder de vista a praticidade de nossas vivências e projetos. Por outro lado, quando operacionalizamos, não nos limitamos ao esvaziamento do "fazer pelo fazer", tornando o nosso cotidiano pedagógico alvo permanente de reflexão. E nesse processo todo, nossos alunos têm viva voz, partilhando nossa linguagem e dando materialidade a nossas abstrações.
Desde sua fundação, a EB1/PE do Sítio de Baixo vem configurando sua vocação de escola contemporânea e pluridimensional. Nosso universo de atuação jamais se limitou à rigidez da grade curricular tradicional; incorporamos gradativamente outros saberes, fazeres e crenças, a ponto de fazer dessa flexibilização uma marca institucional; os conteúdos procedimentais e atitudinais vêm sendo articulados, de forma incisiva, aos cognitivos. Com isso, desembocamos numa escola cultural - que concilia, de modo sistêmico, as dimensões curricular e extracurricular, a pedagogia de saberes e a de valores, o despertar de virtualidades e o afloramento de manifestações variadas de inteligência.
A escola curricular que nos constitui não privilegia a atmosfera científica "detentora da verdade", e sim a movida à luz do pensamento crítico. A ciência e a tecnologia são agregadas ao nosso fazer pedagógico, mas de forma dialética com as ciências sociais e humanas. Propiciamos aos nossos alunos liberdade e prazer na construção e assimilação do conhecimento, em vez de submetê-los a um estoque de saberes limitantes e defasados perante a sociedade da informação. Eis que nossa comunidade escolar vem transitando do domínio da instrução para o domínio da educação, esta englobando aquela. Nossa práxis educativa prioriza a construção coletiva de conceitos e a metodologia de projetos. Além do planejamento integrado que move nossas iniciativas, permitimo-nos abrir novas perspectivas "no meio do caminho". A sala de aula mantém-se viva com os fazeres pedagógicos cotidianos, mas é enriquecida por oficinas especializantes, projetos de cunho sociocultural, disciplinas diversificadas, viagens acadêmicas. E o que é mais interessante nesse percurso é notar como a cada ano ousamos e criamos mais, envolvendo o contigente escolar numa teia de relações que não se esgota nem se dá por satisfeita. É esse espírito de inquietude que permite respirar, pelos corredores da Escola, uma sensação de vigor e simbiose.
Quando a recente reforma educacional brasileira decidiu pela primazia do currículo de perspectiva cultural, a EB1/PE do Sítio de Baixo descobriu-se em posição de vanguarda, estando já adequado às tendências universais em educação, sem perder de vista as peculiaridades locais. E o nosso ideário (que tantas vezes nos pareceu singular e utópico por demais) fundamentou-se em definitivo, construindo nosso traço primeiro de identidade e servindo de alicerce à dialogia com outros centros de ensino que, como nós, buscam a excelência. E excelência não como palavra esvaziada pelo uso excessivo em matéria de Pedagogia, mas como um ideal a ser construído, a se perder de vista. Um norteador em todas as dimensões: ponto de partida, lugar de chegada, "porto de passagem"...